Polímatas e o Homo Universalis
Gosto muito dos polímatas, uma noção forte na era vitoriana, apesar de ter surgido muito antes. O perfil desse tipo intelectual no século XIX traz um desenho ótimo para personagens de contos de ficção, podendo tender tanto para o clássico “gênio inescrupuloso” quanto para o “aventureiro curioso”. Eles também nos evidenciam uma certa disposição de espírito, uma filosofia de vida dotada de grande charme, que contrasta com os atuais tempos de super-especialização e mesmo com a idéia de multidisciplinaridade.
A palavra Polímata vem do grego, Polymathes (Polys: Muito + Manthanein: Aprender). Polímatas são homens que dominam uma série de áreas do conhecimento, sendo geralmente expoentes em algumas delas. Podemos tirar como exemplo Goethe, que era um excelente escritor, filósofo, naturalista e teólogo, ou ainda Da Vinci, com seus incríveis trabalhos na arte, na engenharia e na ciência.
Importante entender que Polímata, não é sinônimo de gênio. É inegável que Albert Einstein foi um gênio, por exemplo, mas seus trabalhos de influência se limitaram ao campo da física. Polímatas são necessariamente geniais, mas sua genialidade se expressa na facilidade que têm de transitar entre as diferentes áreas do conhecimento. Polímatas também não são generalistas ou ecléticos. Essas duas palavras geralmente são ligadas a uma falta de conhecimento profundo sobre o objeto de estudo, uma espécie de troca de qualidade por quantidade, quando um polímata normalmente tem uma noção bem aprofundada daquilo que estuda. “Erudito” se aproxima um pouco mais do conceito. Dei uma pesquisada rápida no significado de erudição, e ao que entendi, a erudição vem quando o aluno tem seus talentos “polidos” pelo conhecimento, passa a contar menos com seu saber intuitivo e conecta mais os fatos a sua vasta rede de conhecimentos aprendidos, tendo assim uma visão mais holística e coerente do mundo. O Polímata seria, então, um ótimo erudito.
O charme dos polímatas vem de sua liberdade e pioneirismo. São como que os “aventureiros” do conhecimento, sempre desbravando novas visões de mundo e “portando a tocha iluminada da Alta Cultura”, se queremos ser sarcásticos. Eles contribuem individualmente para seus campos, como heróis solitários, figuras de autoridade e liderança que não poderiam ser substituídos por qualquer outro.
Seus trabalhos acabam trazendo um sentimento de conforto, originalidade e flexibilidade com o tema, até um “quê” de informalidade, que denota justamente a maestria do tema que se propõem a trabalhar.
Não sou um especialista em história, mas pelo que sei, essa noção teve grande difusão na renascença, com o surgimento das linhas humanistas, do homo universalis. A partir daí ganhou força, e já nos sec. XVIII e XIX, fazia parte da doutrina de ensino dos aristocratas. Nesses séculos de positivismo e progressivismo, os polímatas eram os Grandes Homens, aqueles que podiam com a arte, ciência e política, que levaríam Progresso à Nação. Dado o machismo da época, é notável também como é difícil encontrar mulheres nesse perfil (mas para quem se interessar em polímatas mulheres, embora não seja um exemplo “legítimo”, vale citar a (o) notável Trotula de Salerno, médica – ou médico travestido – do século XI que contribuiu muito para a medicina feminina. De qualquer forma, ela (ele) fez sua notoriedade como mulher, e não se tem certeza se era de fato um homem travestido).
Para dar uma boa imagem do conceito, posso contrastar aqui a figura de Charles Darwin e seu meio-primo, Francis Galton. Os dois eram ligados pelo avô, Erasmus Darwin. Charles Darwin é atualmente muito lembrado por sua genialidade, mas o polímata aqui era Galton. Darwin chegou a ser considerado um jovem improdutivo, mais interessado em caçar besouros do que em estudo, e teve inúmeros atritos com o pai. Ainda assim, conquistou certa notoriedade ainda em seus tempos de estudante. Seus interesses sempre giraram em torno de estudos naturalistas, e isso lhe rendeu a ideia revolucionária da seleção natural. Depois de relatar seus achados em sua viagem de 5 anos no H.M.S. Beagle e algumas monografias sobre estudos naturalistas, Darwin criou coragem e publicou o – hoje aclamado – Origem das Especies. Depois disso passou a trabalhar e reestruturar sua teoria, o que trouxe um arcabouço teórico robusto que é visto com admiração até hoje por sua simplicidade e eficiência. Sem duvida, um trabalho genial, mas não vemos contribuições de Darwin em outras áreas. E quanto a seu primo?

Sir Francis Galton
Francis Galton era tido como criança prodígio. Aprendeu a ler com 2 anos, arranhava um grego e um latim com 5, lia Shakespeare com 6… Formou-se em medicina, mas depois da morte do pai, saiu para explorar o mundo. Ao longo de sua vida, contribuiu com estudos em meteorologia (traçando mapas meteorológicos), estatística (primeiros modelos de regressão e estudos de correlação), psicologia (primeiros testes psicométricos e estudos sobre sinestesia), biologia (estudos sobre hereditariedade e ataques à idéia de pangênese), criminologia (estudos sobre impressões digitais), geografia (explorou o norte e o sul da África), e talvez até outras areas. Além disso, baseado nos estudos de seu primo, estruturou boa parte do que viria a ser chamado de darwinismo social, formulou a idéia de eugenia e iniciou o debate que perdura até hoje da “nature vrs. nurture”. Como vemos, uma personalidade de influência inegável (ainda que políticamente incorreto pelos critérios de hoje).
Ainda escreverei mais sobre Galton numa próxima oportunidade. Esse breve resumo veio apenas para mostrar um bom exemplo de polímata. Como vemos, era um aventureiro, apaixonado por seus estudos e sem medo de projetar suas idéias. É invejável a liberdade que tinha para tratar dos mais diversos temas, liberdade tal que parece ter sumido de uns tempos para cá. Hoje em dia as contribuições são feitas por grandes grupos de pesquisa. Grandes personalidades da ciência ainda existem, mas essas, quando muito, são renomadas por – e apenas têm autoridade em – uma sub-area do conhecimento. E mesmo que a tendência atual seja a multidisciplinaridade, essa significa uma convergência entre vários grupos e instituições para melhor desenvolvimento do conhecimento.
Não como os polímatas, que eram eles mesmos os pontos de convergência, e que, como resultado, geravam produtos com sua personalidade impressa, uma marca indelével em todas suas obras. Eles parecem ter ficado no passado, em uma época em que os fluxos de informação eram menos turbulentos, em que as verdades pareciam mais certas, e em que – vamos admitir – a arrogância e ingenuidade do homem europeu permitia os excessos necessários para tanto.
Portanto, esses homens ficam agora como figuras do passado, e podem reviver apenas como personagens em nossos contos de ficção. Seja como heróis, anti-heróis ou vilões, os polímatas sempre irão despertar certa simpatia daqueles que nutrem essa frustrante ambição de conhecer tudo, sempre representarão o sonho impossível de dominar o conhecimento universal.
Encerro então citando um dos cânones da literatura e, quem diria, polímata!
Da stehe ich nun, ich armer Thor!
Und bin so klug als wie zuvor.
(Faust – Göthe)

novembro 23rd, 2009 at 19:17
Eu gostaria de conhecer mais sobre Goethe. Tudo q eu sei é q ele é um poeta alemão e era amigo de Bethoven
Esses caras são quase utópicos.
Hoje em dia essa especialização em tudo tá cada vez menor, se é q ainda existe.
novembro 24th, 2009 at 22:14
Valeu pelo comentário
Pois é, do Göthe eu só conheço Fausto e um pouco da vida dele. Engraçado também notar que Fausto era, ele próprio, um polímata…
Hoje em dia tem muito cara inteligente e que entende de várias áreas, mas eles só conseguem atenção em uma, se conseguem! Bons exemplos do sec. XX de gênios que, se não eram polímatas, chegavam perto, são o William James e o Santiago Ramon y Cajal. Agora, no sec. XXI, o máximo de pluralidade que eu vejo por aí são os cientistas-empresários do Vale do Silício e os transdisciplinaristas das linhas mais relativistas.
Mas um tópico interessante que tem a ver com esse assunto tá em um blog de onde eu tirei essa primeira imagem do post: http://whyswords.wordpress.com/2009/10/04/the-last-days-of-the-polymath/
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